Início » Blog » Meditação: Você já parou para não pensar a respeito?
O dicionário diz que meditar é pensar, refletir sobre algo. Contudo, a proposta do exercício chamado dhyána é parar as ondas mentais, esvaziar sua mente de pensamentos, suprimir a instabilidade da consciência (chitta vritti nirôdhah), Yôga Sútra I-2.
Para quê parar de pensar? Na verdade, o culto aos “milagres da sua mente” e venerações aos poderes mentais só são concebíveis por parte de pessoas semi-leigas. Para quem já conquistou estágios mais avançados no Yôga, a mente é uma ferramenta muito rudimentar, lenta, limitada e falha.
Fernando Pessoa, poeta e filósofo português do século passado, concorda:
Há metafísica bastante em não pensar em nada. Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma e sobre a criação do Mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos e não pensar.
Assim como durante o dia o sol eclipsa a sutil luminosidade das estrelas e elas não nos aparecem, da mesma forma cada manifestação mais densa eclipsa as mais sutis. O corpo físico eclipsa o emocional. O emocional eclipsa o mental. E o mental eclipsa o intuicional, onde se processa a verdadeira meditação.
Por isso, quando queremos cultivar ou explorar as emoções, como no caso de uma prece ou mesmo de um relacionamento afetivo, procuramos o aquietamento físico. Quando queremos desimpedir o mental, buscamos o aquietamento emocional: não há lucidez mental se o indivíduo está emocionado. Da mesma forma, se queremos chegar à meditação, precisamos aquietar a mente. Ou melhor, um dispositivo muito mais vasto que a mente, algo que no Yôga denominamos chitta. Ao aquietar esse veículo ou instrumento, afloramos um outro estado de consciência superior, que estava todo este tempo eclipsado pela mente. Tal estado é chamado supraconsciência (dhyána). Por esse motivo o homem comum não consegue meditar: seu organismo mental está todo o tempo turbinado.
Rámakrishna, um dos mais importantes mestres do século passado, comparava a mente humana com um inquieto macaco, que tivesse tomado álcool, tivesse sido picado por um escorpião e, ainda por cima, se lhe tivesse ateado fogo ao pêlo! Assim somos nós.
Para alcançar sucesso no Yôga precisamos primeiramente retirar o fogo (pratyáhára); depois, retirar o veneno do escorpião (dháraná); em seguida, retirar o álcool (dhyána); e, finalmente, retirar o próprio macaco (samádhi).
Da mesma forma como não conseguimos enxergar o fundo de um lago cuja superfície esteja turbulenta, uma pessoa não pode conhecer o fundo de si mesma se sua mente (personalidade) estiver agitada, instável.
Mas, como alcançar a estabilidade da consciência? Como desabrochar a supraconsciência? Como fazer fluir a intuição linear? O processo é simples, só requer disciplina e constância.
Tudo se baseia singelamente em exercer concentração duas ou mais vezes por dia, fazendo com que a mente se eduque e deixe de dispersar-se o tempo todo. O alimento da mente é a diversificação. Por isso as pessoas gostam de divertir-se, e as coisas novas fazem tanto sucesso.
Se você negar à sua mente essa dispersão compulsiva, ela primeiro vai reagir como uma criança (que ela é) e vai fazer birra, vai espernear e dizer que quer parar o exercício, que quer sair, que quer dispersar, pensando noutra coisa, fazendo outra coisa, qualquer coisa! Depois, aos poucos, vai-se disciplinando e conseguindo extrair um prazer muito especial em permitir-se ficar alguns instantes todos os dias, fazendo uma catarse que consiste em esbanjar o que nós temos de mais escasso e precioso: o tempo.
Só de “ficar quietos” já estaremos recarregando nossas baterias. Mas meditação não é isso. É o que vem depois. Meditação é quando ocorre uma mudança de canal pelo qual flui a consciência. Normalmente, ela flui pelo mental, ou pelo emocional, ou pelo físico. Mas poucas pessoas experimentaram desligar todos esses circuitos e deixar a consciência fluir por um canal mais sutil, mais profundo, chamado intuicional.
Enquanto está falando, trabalhando, estudando, viajando, divertindo-se, você está recebendo informações do exterior. Para ter insights é preciso parar tudo e permanecer sem bombear registros de fora para dentro. Só assim você consegue inverter o fluxo da percepção e fazer aflorar o que está em seu interior. É aí que tem lugar a criatividade artística ou empresarial. É aí que ocorre o autoconhecimento.
Processo simples
Existem basicamente três graus ou métodos de meditação: yantra dhyána, mantra dhyána e tantra dhyána. O exercício de primeiro grau visando à meditação é o yantra dhyána, que consiste em concentrar-se (aplicar dháraná) na visualização de símbolos ou imagens, até que a mente se sature e as instabilidades cessem. O exercício de segundo grau é o mantra dhyána, que consiste em concentrar-se no som de um mantra sânscrito. O mantra ÔM é o mátriká mantra, ou mantra mater, que deu origem a todos os demais. O ÔM deve ser repetido em pensamento, ritmicamente, a curtos intervalos, produzindo o efeito “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.
O exercício de terceiro grau visando à meditação é o tantra dhyána, que é secreto e só pode ser ensinado mediante iniciação.
O interessante é que você pode alcançar a meditação profunda através de qualquer um desses três graus. Uma vez obtida a parada dos vrittis, que são as instabilidades da consciência, o resultado é sempre o mesmo, não importando o grau ou método usado. Importante é permanecer muito tempo utilizando o primeiro grau, antes de xeretar o segundo. E, igualmente, é necessário executar durante muito tempo o segundo, antes de traquinar com o terceiro.
Um pequeno truque: se você ficar com o rosto contraído ou as costas encurvadas, será mais difícil meditar. Experimente sentar-se ereto e adotar um ar de leve sorriso. Verá que este pequeno artifício o ajudará a superar os primeiros bloqueios.
Outra dica: quanto menos você variar o método, mais rapidamente conseguirá entrar em meditação. Variar é dispersar. A dispersão é o alimento da mente. Sem a dispersão, a mente tende a aquietar-se e pára de eclipsar o estado de intuição, mais sutil.
Há posições específicas para o exercício de meditação. São as posições sentadas, com as costas eretas, as pernas cruzadas, os olhos fechados e as mãos em Shiva mudrá ou em jñána mudrá.
Como saber se já alcançou o estado de meditação ou supraconsciência? É simples: se formula essa dúvida, você não meditou. Se meditasse não teria dúvidas! Mas a recíproca não é verdadeira. Se não tiver dúvidas, isso não é garantia alguma. Você pode ter entrado em auto-hipnose ou em alguma psicopatia se foi mal orientado por ensinantes não-formados. Nesse caso, ao invés de despertar uma megalucidez, o praticante entra num mundo de devaneios e alienações. Isso é muito freqüente quando aventureiros tentam fazer meditação sem sua infra-estrutura natural que são os demais angas do Yôga que a precedem: *mudrá, pújá, mantra, pránáyáma, kriyá, ásana e yôganidrá.
Técnicas
O exercício de meditação produz tão melhores resultados quanto menor for a variedade de objetos de concentração utilizada. Contudo, o iniciante tem o direito de travar contato com uma boa diversidade de recursos para provar cada um deles e depois, finalmente, adotar um único com o qual vai meditar sempre.
Todos os exercícios sugeridos abaixo devem ser praticados com a duração média de 20 minutos pela manhã e outros 20 à noite. No início podem ser praticados por menos tempo, uns 5 minutos. Para yôgins mais avançados, cerca de 30 minutos. Quando não tiver tempo, saiba que é melhor meditar um minuto, apenas, do que não meditar absolutamente nada. E quem é que não dispõe de um minuto pela manhã e outro minuto à noite?
Para o primeiro grau de meditação, yantra dhyána, o primeiro exercício que recomendamos é pousar a consciência sobre o símbolo de um coração vermelho com a imagem de um yôgi sentado em posição de meditação dentro dele. Ou estabilizar a consciência na chama de uma vela. Ou a mesma chama, localizada agora dentro do seu coração. Ou, ainda, estabilize a sua consciência na chama, agora entre as sobrancelhas, com o fogo alaranjado. Você pode ainda estabilizar a sua consciência na imagem do sol ou da lua. Ou imaginar o sol brilhando entre as sobrancelhas.
Para o segundo grau, mantra dhyána, você pode pousar o seu pensamento no mantra ÔM repetido, ritmado, a curtos intervalos. Ou meditar na mensagem O templo da paz está dentro de ti, que se encontra no CD Mensagens do Yôga.
Links relacionados:
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